Colunista

Tempo de folia | Pedro Israel Novaes de Almeida
27 de fevereiro, 2014

 

O carnaval dispensa interpretações filosóficas e conjecturas históricas.

Para os foliões, é um período de liberdade e irreverência, marcado pela informalidade dos festejos e pela expressão alegre e ritmada que contagia até habituais e notórios sisudos. Mendigos usam trajes de reis, milionários saem como mendigos, machões usam sutiãs e autoridades são ironizadas.

Sem um só golpe de Estado ou eleição, as autoridades são substituídas por um tal “Momo”, gordo risonho e descontraído. Em seu reinado, não há cordões de nomeados, discursos mentirosos e desvios de recursos. Não é raro receber as chaves das cidades, reconhecimento oficial de seu reinado.

Muitos foliões frequentam ruas, praias e avenidas, enquanto outros preferem os salões, onde maridos dormem e as esposas sassaricam. Diz a lenda que uma mulher, que brincou descalça, conseguiu manter intactos os dedos dos pés.

Samba, marchinhas, maracatu, frevo e outros ritmos embalam a animação, e os foliões que não sabem as letras viram compositores, não raro inventando versos impublicáveis. Blocos e Escolas de Samba conseguem o milagre que nosso sistema de ensino julga impossível, unindo participação, aprendizado e disciplina.

Fora da folia, multidões aproveitam os feriados para churracos, pescarias, esportes, ócio, consertos caseiros e retiros espirituais. Crianças jogam água e brincam, agradecendo a Momo pelo recesso escolar.

Policiais, bombeiros, socorristas, motoristas profissionais, funcionários de criatórios e lixeiros seguem trabalhando, permitindo a folia alheia. Políticos confabulam, aguardando a deposição de Momo.

A folia segue impune, deixando também um rastro histórico de vítimas, da violência de sempre, agravada pelo uso desmedido de álcool e drogas, nas estradas e esquinas espalhadas por todo o país. O ambiente descontraído propicia vulnerabilidades, e as estatísticas demonstram que novembro é pródigo em nascimentos.

Governos promovem farta distribuição de preservativos, para uns cautela, para outros incitação. Campanhas pela segurança do trânsito e direção responsável são encetadas, tentando o mal menor.

O carnaval é um evento milionário e cultural, gerador de empregos e consumos, atrativo turístico e terapia coletiva. Nosso ano produtivo, contudo, tem seu marco inicial na quarta-feira de cinzas, quando feições desestimuladas comparecem ao serviço, e a sisudez retoma sua frequência.

A folia não é obra divina ou demoníaca, eis que essencialmente humana, com seus encontros e desencontros, alegrias e tragédias. É uma pena que existam tantas vítimas desnecessárias e tantas famílias que terminam os festejos enlutadas.

                                                                                         pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

 

Torcedores e fieis | Pedro Israel Novaes de Almeida
20 de fevereiro, 2014

                       

Diz a lenda que religião e futebol não são temas para discussão.

Fé e paixão residem em foros íntimos, indisponíveis ao julgamento alheio. Ocorre que o futebol vai além dos 45 minutos da partida, e a religião trata de temas e circunstâncias que não envolvem somente almas, origens e destinos.

O futebol tem o condão de transformar torcidas em turbas, gerando exércitos que partem aos estádios como quem parte para uma guerra santa, com inimigos tão odiados quanto anônimos. A paixão esportiva acabou virando um caso de polícia, com assassinatos, espancamentos e depredações. Famílias e torcedores racionais afastam-se dos espetáculos esportivos, hoje inseguros.

Por aqui, as religiões ainda não ainda não constituiram seus exércitos, nem geram pancadarias. Seguem, muitas, respeitando as concorrentes em público, embora maldizendo-as reservadamente.

Nossa Constituição enuncia a liberdade de credo e crença, mas existem diferenças gritantes entre a salvação das almas e pacificação da humanidade, de um lado, e a exploração financeira da boa fé pública, de outro. Permitir a venda de milagres, hoje anunciados até por carros de som e panfletos, é instituir o estelionato consentido.

Enquanto parcela dos torcedores já não vai a estádios, parcela dos religiosos afasta-se dos templos para aproximar-se, sem intermediários, de Deus. A fé e a crença aninham a alma, incentivam a solidariedade e geram esperanças.

No Brasil, crença, fé e torcida fanática estão cada vez mais presentes no cenário político, conturbando a convivência, gerando falsos deuses e eliminando a razão com inspiradora de argumentos. Tal fato já infelicitou e cindiu muitos povos, e ameaça agora nosso futuro.

Cidadãos pessoalmente honestos passam a defender corruptos notórios, alguns condenados e já encarcerados. Notícias de escândalos já não abalam torcidas e sequer diminuem a fé política.

A instituição de torcidas partidárias e fé política apequena o contexto público, transformando debates objetivos em exercícios cegos de demolição da imagem alheia. Debates, originalmente concebidos para confronto de idéias e soluções coletivas, acabam inúteis e enfadonhas acusações, de rotos a esfarrapados.

Existe uma crescente censura política aos atrevidos que ousam a discussão de temas públicos, sem as travas e idiotices do fanatismo partidário. Turbas políticas buscam, de maneira primária, identificar e rotular a que torcida e credo partidário pertence cada semelhante.

As redes sociais, incentivadas por ativistas profissionais, bem demonstram o baixo nível a que chegamos, com milhares de indignados que blasfemam pela simples leitura de um fato malversado ou alusão mentirosa.

Turbas políticas e partidárias incentivam projetos de poder, e desqualificam projetos de governo. Conturbam manifestações coletivas e buscam esvaziar ruas e praças, buscando com que seus alaridos sejam os únicos sons audíveis da sociedade.

Caminhamos a passos largos para a idiotia coletiva e império dos fanáticos, que premia a falta de ética, justifica o aparelhamento do Estado e elimina qualquer resquício de respeito aos discordantes. Estamos, de fato, involuindo.

                                                                                    pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado. 

           

Juízes no interior | João Baptista Herkenhoff
19 de fevereiro, 2014

 

Recebi há poucos dias, por via postal, dois documentos de grande significação, remetidos por Antônio Borges de Rezende, que foi Prefeito Municipal em São José do Calçado (ES).

O primeiro documento refere-se ao ato de sua diplomação como Prefeito eleito. É datado de 8 de dezembro de 1970 e foi assinado por mim, então Juiz Eleitoral, e pelos dois cidadãos que comigo integravam a Junta Eleitoral daquela comarca: Professor Aderbal Ferreira Diniz e Doutor Epaminondas Gomes Moreira. O segundo documento é uma foto da solenidade de diplomação, quando o magistrado declara eleito aquele que, pelo voto popular, foi escolhido para dirigir os destinos da comuna. Nessa foto, além do Juiz e do Prefeito, aparece também o cidadão José Vieira de Rezende, uma figura importante na História do Município. Já se vão quarenta e quatro anos do dia em que essa foto foi batida, motivo pelo qual, tanto o Juiz, quanto o Prefeito, eram então muito jovens.

O recebimento dessas duas reminiscências históricas, faz-me relembrar os tempos vividos em São José do Calçado, onde fui, não apenas Juiz de Direito. Eu e minha mulher Therezinha fomos professores do Colégio de Calçado, fundado pela Professora Mercês Garcia Vieira, em 1939, e encampado pelo Governo Estadual em 1959. Participávamos da vida da cidade, de tudo que ali se fazia em benefício do povo. Seguindo a trilha de Homero Mafra, que tinha deixado entre as pedras dos Pontões a sua marca, colaborei com frequentes artigos no semanário “A Ordem”. Tempos gloriosos em que o Juiz não era somente aquele que, no forum, decidia as contendas, ouvia as partes, proferia sentenças. O juiz era um líder, um incentivador do progresso, um agente da cultura e dos avanços sociais.

Certamente os tempos são outros, tudo mudou. Mas não me parece que devam os juízes de hoje abdicar de seu papel social, colocando-se à margem das comunidades. Não devem restringir sua ação ao expediente forense.

Muitos dos atuais integrantes da magistratura capixaba foram meus alunos na UFES. Pelo menos a estes posso aconselhar. Não se sintam desobrigados de seus deveres exercendo dignamenrte a judicatura. Este é, sem dúvida, o mais importante compromisso. Entretanto, com boa vontade e idealismo é possível oferecer um “algo mais” aos jurisdicionados e ao povo. Este “algo mais” não vai subtrair nada da função judicante. Muito pelo contrario, a função judicante será enriquecida por esse suplemento de trabalho e dedicação. Quando o juiz transitar pelas ruas. o cidadão, ao divisar sua figura, não pensará apenas “ali está o juiz”. Com respeito e afeto seu pensamento irá além: “ali está o juiz, que é professor dos meus filhos”.

João Baptista Herkenhoff, Juiz de Direito aposentado (ES), professor e escritor. Acaba de publicar Encontro do Direito com a Poesia – crônicas e escritos leves. (GZ Editora, Rio de Janeiro).

E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520

É livre a divulgação deste artigo por qualquer meio ou veículo, inclusive através da transmissão de pessoa para pessoa.

Insegurança e inflação | Pedro Israel Novaes de Almeida
14 de fevereiro, 2014

 

Pesquisas indicam que a segurança é hoje a principal preocupação dos brasileiros, apesar do descontentamento geral com as áreas de educação e saúde.

A conclusão das sondagens de opinião soa lógica, pois só a sobreviventes são permitidas a pouca educação e precária saúde. A insegurança deixou de ser uma sensação individual, eis que elevada a unânimidade social.

A insegurança é um stress coletivo, que carcome o bem estar de todos. Convém notar, quando da verificação das prioridades oficiais ao longo de nossos poucos séculos, que jamais foi encarada como inflacionária, não frequentando as preocupações das poderosas áreas econômicas e financeiras do Estado brasileiro.

As despesas com segurança privada e aparatos os mais diversos elevam os custos de famílias e empresas. Ocorrências policiais inibem o turismo, afastam investimentos, chegam a impossibilitar o comércio, desvalorizam imóveis, elevam os custos dos seguros e seguem deixando um rastro de sequelas, tão onerosa aos bolsos quantos aos ânimos.

A insegurança afugenta médicos, professores, alunos e até mesmo carteiros, gerando grotões isolados e convulsos. Ricos, milionários e bem remediados montam caríssimas estruturas de proteção pessoal e patrimonial, e nem assim experimentam boa sensação, pois sabem que continuam expostos a criminosos mais sofisticados e melhor municiados.

Em muitas regiões, até mesmo a agricultura familiar, tão referida em discursos e juras as mais diversas, acaba inviabilizada pela repetição e perpétua iminência de ações criminosas. Muitos agricultores passaram a residir em centros urbanos, mantendo com menor presença a atividade produtiva.

Pobres e desvalidos não escapam, e são as vítimas mais indefesas das ações criminosas, públicas e privadas. Estão expostos em casa, no transporte, no mercadinho, no trabalho e até quando presos persistem inseguros. Caixas eletrônicos deixam de ser uma comodidade, para figurarem como explosivos potenciais.

A cidadania e o próprio Estado de Direito sucumbem com o engrandecimento da criminalidade, e até manifestações coletivas afugentam cidadãos pacatos, agora submetidos à ação de grupos oriundos dos mais diversos porões, interessados em sufocar protestos populares.

A segurança é ponto de partida para qualquer projeto, nacional, estadual ou municipal, e sem ela nenhuma obra ou ação alcança utilidade. Convém aparelhar e profissionalizar os órgãos públicos de repressão, investigação e inteligência, sem os exóticos e infrutíferos expedientes de premiação baseada em índices de ocorrências criminais.

Convém colocar em primeiro plano a sociedade, vítima do demagógico discurso, pseudo-humanitário, de que todo criminoso é produto de exclusões sociais, como se as drogas, a cobiça, a impunidade  e a própria maldade humana não existissem.

Convém dar, à segurança, a mesma relevância dada ao câmbio, reservas, juros, índices, contextos econômicos, bolsas de valores e tantas outras precupações financeiras e econômicas. A insegurança, que gera infelicidade, é também inflacionária.

                                                                                    pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.      

Jornalismo e jornalistas | João Baptista Herkenhoff
14 de fevereiro, 2014

 

O calendário tem uma grande força simbólica. Mesmo sem nos submeter passivamente a seu império, não podemos fugir da convocação que ele nos faz para tratar dos temas celebrados em algumas datas festivas. No dia vinte e nove de janeiro último transcorreu o Dia do Jornalista. Nos dias que se seguiram ocorreram comemorações, palestras, debates e eventos por todo o país. Daí que Jornalismo e Jornalistas, a atividade jornalística e o profissional dessa atividade – são os dois arcos dentro dos quais escreveremos este artigo.

Dispondo do milagre da palavra impressa, não pode o jornalista fugir da missão de ser porta-voz do seu povo, no seu tempo. Cabe-lhe cultivar um jornalismo a serviço da Justiça e da Verdade. É de seu dever denunciar tudo que se oponha a esses valores éticos.

A inteligência necessita de liberdade. Se cada homem tem sua percepção do mundo, uma coerência interior a preservar, a intromissão de outra inteligência na expressão criativa de cada um, com poder de censura, quebra a unidade do ser e constrange a pessoa na expressão de seu mundo em relação com os outros.

Em matéria de garantia da expressão do pensamento, é preciso salvaguardar a liberdade, exigindo responsabilidade. Países há que nos podem oferecer modelos de legislação visando a esse duplo objetivo. O traço comum é a liberdade, sobretudo quando se refere ao livro e ao jornal, com responsabilidade criminal do abuso, por via judiciária, na forma da lei. Não oferecem as nações de tradição democrática exemplos de procedimentos como a censura de jornais e a apreensão de livros ao arbítrio do Governo. Também é descabida a pretendida censura dos biografados nas respectivas biografias, assunto de que tratamos em artigo que publicamos recentemente.

É intolerável a censura governamental, como também o é a censura exercida pelos donos de jornal. Foi equivocada a atitude de Assis Chateaubriand quando pretendeu censurar um texto produzido por Rubem Braga, que seria editado num dos jornais daquele magnata da imprensa. Nosso Rubem altivamente protestou contra a censura interna que seria aplicada a uma de suas crônicas. Chateaubriand replicou dizendo ao grande Braga que, se ele quisesse ter liberdade plena de opinião, deveria fundar seu próprio jornal. O argumento daquele, que era então o poderoso dono da empresa jornalística “Diários Associados”, é de todo inaceitável. Todo jornalista deve desfrutar da absoluta liberdade de expressar seu pensamento nos artigos e editorias de sua responsabilidade, dentro dos veículos de comunicação. O clima de liberdade, que valoriza a profissão de jornalista, também engrandece jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão.

 

João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado (ES), professor e escritor.

E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520

É livre a divulgação deste artigo por qualquer meio ou veículo, inclusive através da transmissão de pessoa para pessoa.

 

Salve o carteiro | João Baptista Herkenhoff
14 de fevereiro, 2014

 

Este mundo precisa das mais diversas profissões e ofícios, todos credores de valorização e respeito, desde que desempenhados com honestidade.

Por este motivo, em nossos artigos temos exaltado múltiplas atividades humanas: o fotógrafo, o sacerdote e o guia religioso em geral, o psicanalista, o professor, o jornalista, o escritor, o empregado doméstico, o politico, o ambientalista, o jardineiro, o ator, o músico, o médico, o jornaleiro, o bibliotecário, o magistrado, o advogado, o policial. Se o jardineiro não cuida das flores, a cidade será insípida e sem alma.

Se os músicos não comparecem no coreto da praça, a gente sofrida não poderá se despedir da dor “pra ver a banda passar cantando coisas de amor” (Chico Buarque).

Nesta página desejo homenagear o carteiro.

Se o carteiro não entrega as cartas, o avô não receberá o cartão que, de terras distantes, a neta lhe envia.

Não foi sem motivo que Pablo Neruda atingiu culminâncias em “O Carteiro e o Poeta”. Numa remota ilha do Mediterrâneo, um carteiro recebe a ajuda do poeta Pablo Neruda para, através da Poesia, conquistar o amor de Beatrice, a eleita. O carteiro, que era o mediador da correspondência do Poeta, aprende, aos poucos, a traduzir em palavras seus sentimentos pela amada. Em troca, Mário, o carteiro, foi o interlocutor do Poeta, mostrando-se capaz de ouvir suas lembranças do Chile e compreender as dores do exilado.

Sou do tempo das cartas por via postal, que carregavam um certo mistério.

Aderi à internet pela praticidade da comunicação através deste grandioso invento, mas tenho saudade das cartas de antigamente.

Os e-mails também podem transmitir sensibilidade, mas as cartas tinham um sabor especial.

Guardo todas as cartas que recebi de minha esposa quando éramos namorados.

Como ela também guardou as que mandei, temos em nosso arquivo todas as cartas que trocamos.

Reli, nestas férias, “Cartas do Pai”, escritas por Alceu Amoroso Lima para Maria Teresa, sua filha freira. Nessa correspondência, Alceu, cujo pseudônimo literário era Tristão de Athayde, examina os fatos do dia, no Brasil e no mundo, com aquele olhar de Fé que o caracterizou sempre.

A publicação das “Cartas do Pai” foi o resgate da travessia terrena de uma das mais dignas figuras da história contemporânea brasileira. Coerente, intrépido, comprometido com o bem comum, Alceu personificou durante sua vida esse catálogo de virtudes cívicas através das quais é possível construir uma verdadeira Nação.

Salve o carteiro, este trabalhador que transforma as cartas em poemas, as folhas de papel em flores perfumadas, o insípido da vida em alegria transbordante.

 

João Baptista Herkenhoff, 77 anos, juiz de Direito aposentado (ES), professor e escritor.

E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520

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Circo eleitoral | Pedro Israel Novaes de Almeida
06 de fevereiro, 2014

 

Está sendo montado, país afora, o circo eleitoral.

Despesas públicas são historicamente aumentadas, mormente na área de publicidade e divulgação das ações de governo. Nomeações para cargos comissionados atendem, como nunca, interesses meramente partidários, buscando apoios nas campanhas.

Deputados em campanha percorrem feudos eleitorais, demonstrando as verbas e obras que direcionaram a cada município. Soa estranho, mas a aplicação de recursos públicos se transforma em favor pessoal dos candidatos.

A maioria dos candidatos, a todos os cargos, recita frases pré-fabricadas e ensaia feições sorridentes. São, quase todos, empreendedores, candidatos natos à frequência assídua nos gabinetes executivos, em busca de verbas e providências públicas.

A prostituição do Legislativo começa nas campanhas eleitorais, que tendem a beneficiar políticos incondicionalmente situacionistas, qualquer que seja o mandatário. O loteamento partidário de ministérios e secretarias cria cacifes eleitorais, de favores ou desvios.

São raros os candidatos que anunciam conceitos e apregoam posturas, e a maioria foge de temas controversos, buscando unanimidades. Candidatos ideológicos, alguns úteis, outros excêntricos ou ridículos, conseguem boas votações, pois existe uma porção do eleitorado, minoria, que prefere políticos de atuação previsível a meros caçadores de verbas.

O circo eleitoral gera muitos políticos e poucos líderes, permitindo e facilitando a continuidade dos mandatários. Tal situação expõe o país a aventuras personalistas e ideológicas.

Um deputado ou senador que simplesmente favorece sua região ou município pode, com sua omissão legislativa, liquidar um Estado ou país. Precisamos, como nunca, de políticos com opiniões e conceitos, visíveis e asssumidos.

O circo eleitoral permitirá as contribuições de pessoas jurídicas, excrecência que vicia mandatos e desequilibra disputas. Pessoas jurídicas não possuem preferências partidárias. Quem as possui são os acionistas, que devem contribuir dos próprios bolsos.

Mais uma vez, as apurações serão exclusivamente eletrônicas. É estranho que povos com elevado nível tecnológico persistam manuseando e contando votos, enquanto somos recordistas em escrutinação.

Nas redes sociais, cabos eleitorais, alguns certamente treinados e pagos, tratarão de demolir imagens e malversar fatos, refletindo o clima da disputa. Informações e contra-informações frequentarão as telas e ânimos dos internautas.

A Copa do mundo, com riscos à situação e oposição, tenderá mais a cabo eleitoral que certame esportivo. A rigor, um fracasso de nossa seleção seria útil à democracia. Mais importante que os gols que possamos marcar são os custos que a história ainda vai registrar.

                                                                                     pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

Esquerda ou direita | Pedro Israel Novaes de Almeida
01 de fevereiro, 2014

 

Houve um tempo em que a humanidade estava encurralada pelo embate entre o comunismo opressor e o capitalismo selvagem, sofrendo as agruras da guerra fria.

Muitas economias socialistas sucumbiram, enquanto outras cuidam de minorar o conceito de igualdade, permitindo a valorização de méritos individuais, crescentes patrimônios privados e liberdade de expressão. Comunistas, muitos, perceberam que o tolhimento de liberdades e a centralização do poder conduzem ao fracasso econômico e insatisfação social.

O capitalismo também sofreu profundas mudanças, instituindo limites ao poder do capital, criando políticas sociais de inclusão e a primazia dos interesses coletivos. Até a propriedade privada, altar e sustentáculo do sistema, passou a ter sua autonomia condicionada ao cumprimento de ditâmes legais.

Enquanto o capitalismo gerava mais ricos que riquezas, e o comunismo transformava países em prisões, foram criados guetos políticos, raciais, sociais e culturais. O desmanche de tais guetos, e a geração de bem estar social, preocupa e obriga, governantes de todos os espectros políticos, a ações de inclusão, a maioria baseada na educação e geração de rede pública de assistência e amparo.

Cada povo cuida de aperfeiçoar seu sistema, sob o peso de ranços políticos e partidários, e a limitação de possuir grandes contingentes, social, cultural e econômicos, dependentes da ação oficial. Tal dependência, se atendida de maneira partidária e clientelista, tende a perpetuar poderes e prostituir contextos.

A integração dos mercados e a crescente instituição de organismos internacionais, buscando normas globais de convivência entre os países e um mínimo de respeito aos indivíduos, tem gerado sucessivos incômodos a tiranos e déspotas ainda empoderados.  A própria existência de paraísos fiscais, relacionados ao acolhimento de capitais surrupiados e impunidade, tem sido condenada e desestimulada.

Aos poucos, a humanidade caminha para a desconsideração da autonomia dos povos, quando submetidos a mandos cruéis e desrespeitosos. A autonomia formal nem sempre é sinônimo de liberdade, e as intervenções de órgãos internacionais serão crescentes.

Países em desenvolvimento ainda sofrem a ação de atividades e mandos políticos primários, tão corruptos quanto clientelistas. Em tais contextos, governos acabam endeusados e Estados esfacelados.

Entre nós, partidos não refletem ideologias, e vivemos, da federação ao município, administrações mais voltadas à próxima eleição que ao atendimento das necessidades coletivas. O PT admite qualquer desvio ou erro, se encontrar ou julgar haver encontrado algo similar, na história do PSDB.

Merecemos bem mais que o cínico embate entre os partidos, pois ambos já não guardam características ideológicas definidas, e sequer exigem de seus eleitos um mínimo de compostura. PT e PSDB são grupamentos estranhos, repletos de incoerências e compartimentos inconciliáveis.

                                                                                      pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

A pescaria | J. Barreto
28 de janeiro, 2014

Pedrinho: Vô, eu cheguei.

: Estou vendo, você madrugou. 

P: Já vamos pescar vô?     

V: Daqui a pouco iremos, mas antes vamos tomar um bom café, já arrumei a mesa, e sua avó fez um bolo bem gostoso, aproveite e coma bastante para ficar bem forte.  

P: Já comi bastante, agora podemos ir.        

V: Antes vamos arrumar a cesta com os lanches, encher o garrafão térmico com água geladinha, pegar os refrigerantes e as frutas, e não podemos esquecer as varas e as iscas e também a manta.  

P: Não precisa levar a manta, eu não vou dormir. 

V: Eu sei disto.   

P: Vô ainda esta longe do rio?    

V: Não, estamos quase chegando.   

P: Vô faz tempo que estamos aqui e não pescamos nada.  

V: Pescaria é assim mesmo, precisa ter paciência e esperar os peixinhos chegarem, agora vamos subir e comer nossos lanches.   

P: Acho que não quero lanchar, estou sem fome.    

V: Eu sei você comeu banana, chupou laranja e tomou refrigerante, mas agora precisa comer alguma coisa salgada, porque saco vazio não para em pé.

Agora que já lanchamos vou estender a manta na sombra para você deitar.     

P: Mas eu não estou com sono.   

V: Não precisa dormir, deite só para fazer a digestão, e eu aproveito para arrumar e fechar as vasilhas, senão as formigas e os bichinhos vão fazer a festa.    

P: Vô acho que eu dormi.     

V: É você dormiu um pouquinho (mais de duas horas).       

V: Acho que está na hora de voltarmos, pois sua mãe e sua avó devem estar preocupadas com a gente, e se chegarmos tarde vamos levar um pito.   

P: Acho que perdemos o dia, porque não vamos levar nem um peixinho para mostrar para elas.  

V: É verdade que não vamos levar nem um peixinho, mas este será  para sempre um dos melhores dias de nossas vidas, pois este foi um dia só nosso, onde falei dos meus sonhos para o seu futuro, falei que te amo, e você disse que  me quer muito bem, e que eu sou o seu amigão.  

Quando os anos forem passando muitas e muitas vezes este dia estará em nossos pensamentos, e nossas vidas estarão cada vez mais unidas. E quando você tiver a minha idade você sentirá saudades deste dia, mas não será uma saudade nostálgica que leva ao passado, mas sim uma saudade gostosa que trará o passado para o presente, o dia em que um avô e um neto se amaram tanto, em um amor que só Deus pode proporcionar.  Sua mãe e sua avó estão nos esperando, e vamos que vamos, senão eu começo a chorar.

 

J.Barreto

Úteis e desvalorizados | Pedro Israel Novaes de Almeida
25 de janeiro, 2014

 

Existem profissões e ocupações que gozam de prestígio junto à sociedade, pelo contraste entre o muito que desempenham e o pouco que recebem.

Sem o ranço da autoridade, tais atividades não costumam frequentar manchetes escandalosas, e seguem, utilíssimas, a rotina de beneficiar a todos. Por rotineiras e continuadas, são, em regra, pouco percebidas, eis que integram a cena do dia-a-dia.

Bombeiros socorrem situações extremas, como acidentes graves e incêndios, arriscando a própria vida. Não é fácil procurar corpos humanos em águas turvas.

Médicos socorristas aplicam seus conhecimentos em situações externas de urgência e emergência, buscando preservar a vida alheia até que o socorrido chegue a unidade de atendimento mais próxima. Sem cadastros, identificações, consultas ou qualquer outra formalidade, atendem pelo simples fato de haver uma vida em risco.

O lixeiro, que passa incógnito recolhendo restos alheios, é verdadeiro atleta social, perseguindo, por horas a fio, o caminhão de coleta, que determina a velocidade do serviço. Muitas vezes, é obrigado a pegar dezenas de saquinhos de supermercado, que poderiam estar contidos em uma só embalagem. Conhece, pela obra, todos os cães do percurso.

Varredores de rua e calçadas agrupam e coletam tudo o que deveria estar em lixeiras, de fezes animais a impressos, folhas e embalagens plásticas. Competem, em pouca visibilidade e elevada relevância, com limpadores de banheiros públicos.

Entregadores dos Correios cuidam de distribuir correspondências e produtos, de cartas emocionadas a irritantes boletos de cobrança. Memorizam nomes, endereços e cães raivosos, e estão cada vez mais submetidos à criminalidade, vítimas fáceis de roubos.

Tamanha relevância social costuma ser premiada, excepcionalmente, com rápido e impessoal agradecimento. Em ocasiões especiais, o ofício rende-lhes um panetone.

Não costumam figurar em placas identificadoras de logradouros, e não há registro de ruas, praças ou viadutos com o nome de Lixeiro José, Socorrista Antonio ou Bombeiro Gabriel. Constituem o elo fraco e irreconhecido de nossa sociedade, verdadeiros heróis anônimos.

Aprendemos, no dia-a-dia, a cultuar doutores e poderosos, celebridades e extravagantes notórios. Aprendemos a não valorizar as rotinas e seus operadores.

Ricos, pelo simples fato da riqueza, são comemorados, e funcionários graduados, pela eiva do favor potencial, acabam louvados. Na verdade, a sociedade é silenciosamente grata aos operadores de rotinas, e só exterioriza tal reconhecimento quando da falta ocasional dos serviços.

Deve ser estranha a sensação de inexistência e exclusão, dos utilíssimos trabalhadores que operam sem sequer a atenção de um simples “-bom dia” ou um mero “obrigado”.

                                                                                  pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

           

Postura na igreja | J. Barreto
25 de janeiro, 2014

 

Quando um advogado faz uma petição on-line ele pode fazê-la de chinelo e sem camisa, mas quando tratar de algum assunto pessoalmente com o juiz ele se apresenta corretamente trajado, pois está diante de uma autoridade. Quando se envia um currículo pela internet não importa como estamos vestidos, mas ao nos apresentarmos para a entrevista temos que nos adequar ao momento, porém quando freqüentamos uma praia devemos estar de acordo com o ambiente. Uso destes exemplos para comentar certas atitudes dentro da Igreja. Nós católicos cremos com uma fé dogmática que na Eucaristia comungamos o Corpo e Sangue de Cristo, e que a Igreja Templo é o espaço físico próprio para adorarmos a Deus. É por isso que nos cerimoniais o Padre, os ministros, os coroinhas e os irmãos do Santíssimo se apresentam paramentados. Até o advento do concílio Vaticano II, as missas e cerimoniais eram celebrados em latim e o povo apenas assistia, pois mesmo respondendo em latim ignoravam o que diziam, porém hoje os fiéis são co-celebrantes da missa, cabendo ao Padre a exclusividade da consagração do PÃO e do VINHO.

Talvez por ingenuidade ou ignorância (ignorar e não conhecer), alguns fiéis freqüentam a Igreja e até mesmo a Mesa da Comunhão trajando bermuda ou camisa regata, como se estivessem em uma reunião de amigos em final de semana. Certas jovens se apresentam com micro shortinhos, com calças tão agarradas que parece difícil até de vesti-las, e umas mini saias, que embora não o seja, dá a impressão de querer mais seduzir do que outra coisa. Torno a repetir que essas pessoas não o fazem deliberadamente, mas sim por não receberem uma educação pastoral que as instrua com relação às condutas a serem tomadas em comunidade. 

Creio que estas tolerâncias são permitidas ou ignoradas para que não ocorra dispersão dos fiéis, e é ai que o efeito se torna o aquilo que se teme, pois os católicos que migram para as Igrejas Evangélicas encontram nas mesmas uma austeridade corporamental que as fazem se sentir mais próximas dos ensinamentos bíblicos, portanto da vontade de Deus.

O que está faltando realmente é um diálogo mais franco da Igreja com seus fiéis, onde tenha uma interação objetiva com a comunidade. Nas missas a musica enriquece o cerimonial, porém ela deve ser compartilhada com todos os fiéis, e para que isto aconteça ela deve ser conduzida em um tom suave,  com um ritmo e uma letra de fácil assimilação, pois Deus tem um ouvido tão sensível que ouve até nossos pensamentos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

 

J.Barreto

Tolerância religiosa | João Baptista Herkenhoff
24 de janeiro, 2014

É sempre oportuno refletir sobre o diálogo entre as crenças e a possibilidade de ações em comum baseadas em ideais éticos partilhados por numerosas religiões.

Houve um tempo em que o Brasil era um país de maioria solidamente católica. Hoje as religiões adotadas pela população brasileira diversificaram-se grandemente. Inúmeras crenças cristãs, que não apenas a religião católica, têm amplo número de adeptos. Religiões africanas e indígenas, que uma visão equivocada de Cristianismo pretendeu sufocar, ressurgem como afirmação da dignidade de raças oprimidas. O Judaismo, o Islamismo, o Budismo, o Taoísmo, o Confucionismo estão presentes no mosaico religioso do Brasil contemporâneo.

Ouvi de Dom Luís Gonzaga Fernandes, que foi Bispo no Estado do Espírito Santo, esta singela colocação: “toda verdade, toda Justiça provém de um único Deus, um Deus com muitas faces, um Deus com muitos nomes.”

Em período de estudos que passei na França, tive especial interesse pela questão das religiões em face dos desafios éticos. Li inúmeros autores. Dialoguei com crentes de diversas confissões. Concluí que as maiores religiões e sistemas filosóficos da Humanidade afinam, nos seus grandes postulados, com as ideias centrais que caracterizam um conjunto de princípios que poderíamos denominar como Ética das Relações Humanas Fundamentais.

Cornelius Castoriadis observa que as religiões em geral têm uma pretensão universalista, no sentido de que sua mensagem endereça-se à Humanidade inteira. Não obstante esse caráter "universalista da religião", acreditamos que um elo de compreensão pode estabelecer-se através do diálogo e da tolerância.

Os valores do Bem, da Justiça, da Fraternidade são reverenciados nas mais diversas tradições religiosas da Humanidade. Não são monopólio do Ocidente ou propriedade cristã, e muito menos pertencem a um credo particular.

Que haja comunicação entre as diferentes crenças, entre as pessoas que aderem a essas crenças. Não se trata da falsa comunicação, totalitária e impositiva. Trata-se da verdadeira comunicação, baseada no respeito ao outro e na abertura para ouvir. É a esta comunicação que se refere François Marty. É a comunicação bipolar, que supõe um elo entre as pessoas que se falam.

Que haja humildade. Só a humildade permitirá às Igrejas a aceitação da historicidade de suas formas concretas de existência.

No que se refere aos católicos, tudo indica que o Papa Francisco ampliará o abraço fraterno de todos os crentes.

No Brasil, de maneira particular, será de bom conselho o comportamento tolerante em matéria religiosa. Que cada um siga sua consciência e respeite a consciência do próximo.

João Baptista Herkenhoff, Juiz de Direito aposentado (ES), professor e escritor. E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520

É livre a divulgação deste artigo por qualquer meio ou veículo, inclusive através da transmissão de pessoa para pessoa.


 

Flagelado | João Baptista Herkenhoff
24 de janeiro, 2014

 

Pela primeira vez no curso de minha existência, vivi por uma noite a situação de flagelado. Foi uma experiência que me impõe um salto existencial.

Eu voltava de Vitória, onde acompanhei minha mulher para uma consulta médica, e me dirigia a nossa residência na Praia da Costa. No meio do caminho caiu o temporal que deixou milhares de famílias capixabas ao desabrigo.

Quando estávamos diante da alça, cuja transposição nos levaria bem próximo do edifício onde moramos, o táxi que nos conduzia percebeu que não seria possível seguir adiante. O carro ficaria afogado na água, se tentasse vencer a correnteza. Também já estava totalmente interrompida a passagem pela Rua Hugo Musso, a segunda alternativa possível. O taxista subiu até o topo do Morro do Marinho, onde estaríamos a salvo das águas. Disse que deixaria o carro estacionado ali e seguiria a pé para sua casa, no meio da lama. Deixou-nos a ver navios, como se diz na linguagem popular. Eu me vi na situação de flagelado: ao relento, sem ter onde reclinar a cabeça. Pensei nos milhares, em situação infinitamente pior: não num desabrigo eventual, que podia ser contornado com um pouco de paciência, mas num desabrigo total. Meu filho, residente na Praia do Canto, disse que iria a nosso encalço. Nós lhe pedimos que não se lançasse a tão temerária jornada, uma vez que não poderia transpor a correnteza.

Quando estávamos aparentemente entregues a nossa própria sorte, eis que se aproxima um casal que não conhecíamos e também não nos conhecia: Miguel Motta Neto e Valquíria Motta. Esse casal nos convidou para que nos dirigíssemos à casa deles, que ficava ali bem perto. Fomos então recebidos por Dona Mara, Mãe do Miguel, e ficamos conhecendo o filhinho do casal – Gabriel, que tem a mesma idade de nossa netinha Lis. Dona Mara nos ofereceu um café com broas feitas em casa.

Estávamos a projetar como seria nossa ida em direção ao edifício onde moramos, na Avenida Antônio Gil Veloso. Seria preciso esperar que o nível das águas baixasse. Foi aí que Miguel e Valquíria atalharam nosso pensamento: não iríamos para nossa residência, dormiríamos na casa deles.

Felizes sob a proteção daquele lar, antevimos que o assoalho de madeira seria mais confortável que o leito que nos fosse oferecido num castelo.

E eis que Valquíria, Miguel e Dona Mara nos propõem um absurdo: eles todos se ajeitariam no chão e nós dormiríamos na confortável cama do quarto do casal. Tentamos sem êxito dizer não.

E a noite que supúnhamos seria de flagelado tornou-se uma celebração de Fraternidade. O salto existencial que mencionei no início deste artigo consiste no desafio de tentarmos ser para outros tão irmãos quanto foram para nós Miguel, Valquíria e Dona Mara.

João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado (ES), professor e escritor. E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

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Dilema de um pai | J. Barreto
17 de janeiro, 2014

Certa pessoa recebeu de herança uma grande empresa, mas que não se modernizou para poder competir com seus concorrentes. Embora tivesse uma grande produção, seus produtos não agregavam um bom valor, e seus custos eram altos em decorrência da má qualidade da mão de obra disponível. Ele tinha dois filhos, nos quais depositava toda sua esperança, e sonhava vê-los diplomados, e assim poderiam transformar aquela velha empresa em algo moderno, competindo de igual para igual com suas rivais.  

Para poder realizar este sonho ele procurava economizar em tudo o que fosse possível, e até mesmo algumas vezes no impossível. Infelizmente seu filho mais novo contraiu uma doença rara, quase sempre fatal, e de um tratamento caríssimo, e que mesmo sendo superada deixaria seqüelas irreversíveis, tornando-o incapaz para qualquer atividade.  Foi ai que começou a grande batalha entre o coração e a razão, se ele optasse pelo tratamento do filho doente, todas as suas economias seriam consumidas com o tratamento atual, e nem sobraria nada para as despesas futuras, portanto o filho mais velho não teria como freqüentar uma universidade, e seria mais um dentro da empresa. Neste embate a razão venceu, e ele SUSpirando resolveu entregar seu filho doente nas mãos de Deus para que Ele agisse como achasse melhor.  Assim sendo ele decidiu custear os estudos do filho mais velho, pois o mesmo se tornando uma pessoa mais culta e tecnicamente mais capaz poderia revolucionar a produção da empresa, podendo assim gerar renda suficiente para garantir um padrão de vida melhor para todos, inclusive para seu para seu irmão inválido.

Não sei por que esta estória me recorda um certo País e dois de seus ministérios. Mas como sou sentimental eu escutaria o coração, mesmo sabendo que faria a escolha errada.

 

J.Barreto

Respeito e desordem | Pedro Israel Novaes de Almeida
17 de janeiro, 2014

                                        

A diversidade humana é o sal da terra.

É também o destempero que impede a plena paz e calmaria das ditaduras, armadas ou democráticas. A diversidade impede que sejamos um clone, e estimula a criatividade que inova e aperfeiçoa.

Poucos povos conseguem fazer da diversidade um elemento enriquecedor. São poucos os povos que sabem conviver com ideários e manifestações discordantes, e poucos são os idealistas e manifestantes que respeitam as discordâncias e entendem que gerações guardam valores e tradições não descartáveis.

Não pode ser exigido de avô, que passeia com o neto de sete anos, feição alegre, ao cruzar com Maria amassando Aurora, ou Benedito beijando Sebastião. Podemos exigir que respeite e não discrimine a diversidade sexual, mas devemos respeitar seu pacífico inconformismo.

É justo e nada conservador que um cidadão exija, do Estado, a retirada da cracolândia fundada em seu portão, por mais que cientistas e estudiosos expliquem o crescimento das drogas e a infelicidade decorrente se seu consumo, por multidões.

É difícil convencer, comerciantes e frequentadores de shoppings, espaços privados, que a quebradeira e corre-corre da multidão de rolezistas podem, remotamente, ter inspirações idealistas e ser decorrência de inconformismo social.  Podem e devem exigir respeito ao patrimônio, segurança e tranquilidade.

Uma família de agricultores, que ao longo de gerações acumulou trabalho, constituindo capital, não pode consentir que sua propriedade seja invadida por turbas que questionam o direito de propriedade, nem pode ser forçada a conviver com a ocupação, enquanto agentes do Estado dialogam com invasores, muitas vezes por longos períodos. Não é fácil aceitar que uma ordem judicial de desocupação dependa, para cumprimento, de análises de conveniência, pelo Executivo.

Nossos mandatários, legislativos e executivos, são reféns do despreparo, e poucos conseguem entender que todos os direitos sociais e políticos são baseados na garantia aos direitos individuais. Sem a garantia ao direito de cada um, a sociedade é uma grande e desnorteada turba.

Por aqui, cidadãos julgados e sentenciados podem ser degolados, mesmo sob a formal tutela do Estado. Agentes dos Correios não podem trabalhar em guetos violentos, índios cobram pedágios e manifestações coletivas não devem ser reprimidas, ainda que repressoras e violentas. 

O exercício de mandatos deixou de ser um reinado personalíssimo, de conchavos políticos e distribuição de benesses, para ser um garantidor de direitos e intérprete da sociedade. Tapar buracos, aparelhar partidariamente a Administração, festejar inaugurações e assinar decretos de nomeações já não bastam.

Precisamos, como nunca, de líderes. Os governos perderam o liame com a sociedade. Uma simples lombada, cuja ausência tenha causado dezenas de mortes, só é conseguida quando ônibus são queimados e o trânsito impedido.

Hospitais e Centros de Saúde só são equipados quando a imprensa aponta o absurdo, e corrupções seguem solenemente ignoradas, e toleradas, até que tornadas públicas.

Voltamos à idade da pedra. Deixamos de ser um conjunto respeitoso de diversidades para ser um aglomerado confuso e desamparado.

Não vemos luz no fim desse túnel.

                                                                                  pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.        

Pão ou circo | Pedro Israel Novaes de Almeida
09 de janeiro, 2014

 

As exposições e feiras agropecuárias estão presentes em grande número de cidades, Brasil afora.

Inicialmente inspiradas na valorização das atividades rurais, incremento de negócios e disseminação de tecnologias, tais exposições já ocuparam lugar de destaque na gastança pública. Houve um tempo em que shows eram patrocinados pelos cofres públicos, acabando transformados em visível instrumento de propaganda eleitoral e popularização de políticos.

No mais ridículo dos exemplos, artistas famosos interrompiam a apresentação, para agradecimento ao prefeito e políticos locais, citando-os um a um. Às oposições restava um cantinho pouco percebido na platéia, e a espera pelo anúncio dos prejuizos do evento, para lamentar a persistência de problemas não resolvidos, sob o perpétuo argumento da falta de verbas.

Aos poucos, os cofres públicos foram deixando de patrocinar os famigerados shows, limitando o apoio ao fornecimento de estrutura e colaborações não financeiras. Os riscos de eventuais prejuizos acabaram arcados por sindicatos rurais e setores privados.

Os shows milionários de artistas famosos, parques de diversão e  rodeios sempre atrairam multidões, pouco interessadas nos objetivos originais do evento. À multidão, interessa o circo, pouco importando se instalado em congresso de física nuclear, encontro de filósofos ou feira agropecuária.

Rodeios, em suas modalidades mais cruéis, tornam-se crescentemente proibidos, e o custo dos grandes shows torna o patrocínio cada vez mais arriscado. Com isso, as feiras e exposições agropecuárias ensaiam um retorno às origens, buscando atrair interessados em atividades, tecnologias e produtos relacionados, com um ou outro atrativo, inclusive artistas locais.

Continuam, prósperas, as festas tradicionamente grandiosas, não raro de importância internacional, com forte presença industrial e reflexos turísticos. Nas pequenas e médias, contudo, ocorre um justificado e lógico retorno às origens.

O comércio das pequenas e médias cidades sempre sofreu as ressacas das festas que atraiam multidões. Tais cidades, através das festas, exportavam economias populares.

A involução das exposições agropecuárias pode premiar as iniciativas,  méritos, produtos e talentos regionais, pouco notados no burburinho das multidões atraidas por sucessos e diversões em moda. Descongestionadas e com menores custos, as feiras tornarão mais cômodas e eficientes as visitas de contingente efetivamente interessado no tema rural, industrial ou comercial.

Shows, rodeios e parques grandiosos continuarão sendo ofertados, sempre que a iniciativa privada resolva, em eventos isolados, ofertá-los, sob risco e responsabilidade própria.

                                                                                         pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

Mantendo hábitos | Pedro Israel Novaes de Almeida
03 de janeiro, 2014

 

Contrariando a regra geral de mudança quase generalizada de hábitos, optamos por preservar alguns vícios e esquisitices, em 2014.

Exceto pelo incômodo aos que aguardam a vaga, não vemos crime algum em continuarmos indo ao banheiro, portando o jornal do dia. É bem melhor a leitura de qualquer texto que o vislumbre da cena, sempre a mesma, de azulejos e cantos inertes.

Ainda que condoídos pelo sofrimento da família, pretendemos continuar ouvindo CDs de Cauby Peixoto, e tantos outros que compõem nossa precária coleção. Os filhos, críticos contumazes de nossas preferências musicais, pediram desculpas quando souberam que o pai de um colega confessou adorar Luan Santana e Netinho.

Hábito de décadas, continuaremos guardando a sete chaves as calças velhas, camisetas tortas, meias pouco furadas e botinas ventiladas, que mantiveram intacta a sola. Vestes idosas são de incrível conforto, a duras custas moldadas às imperfeições dos usuários.  Existe uma universal, ingrata e irritante mania de descartá-las.

Continuaremos votando nas oposições, pois é melhor arriscar uma melhora que garantir o desastre. Oposições, talvez por descompromissadas, são em geral mais simpáticas.

Persistiremos sem comprar fiado, não acumulando carnês. Além dos  altos juros, sempre praticados e pouco confessados, as parcelas acabam sendo rotineiramente esquecidas e pagas com atraso de um ou dois dias.

É impossível deixarmos de ser sovinas, característica nata irrevogável e incontornável. Vamos seguir apagando luzes, fechando torneiras e desligando equipamentos sem nenhum operador.

Manteremos nossa fidelidade ao golzinho 1.0, ano 2002, agora apelidado de Urbano, pelo fato de não suportar percursos superiores a 30 km, ininterruptos. Na cidade, vai e volta, como o faz qualquer Camaro ou Mercedes.

Seguiremos os conselhos de nosso fumante cardiologista, que prefere a diminuição gradativa do consumo ao risco de enfarte ou AVC, consequentes de traumas da abstinência. Continuaremos andando bastante, enquanto o preço da gasolina permitir.

Continuaremos sem a ingestão de álcool. No quarteirão, somos os únicos que não bebem, e os únicos com feição de bêbados.

Persistiremos desrespeitando a Constituição, no julgamento pessoal de autoridades. Elas são presumidas culpadas, até que provem inocência.

Não pretendemos qualquer reação ou artifício capaz de debelar o sono, entidade mágica que faz com que durmamos até em caminhão de mudança. Quando ele chega, não existem crises na bolsa de Nova Iorque ou notícia de renúncia coletiva, em Brasília, capaz de debelá-lo.

Estaremos, mais uma vez, distantes das academias de artes marciais, praticando tão sómente a modalidade 100 metros rasos, imbatível em termos de defesa pessoal. Quem a pratica não bate, mas também não apanha.

E assim vamos entrando em 2014, com os mesmos vícios e esquisitices de 2013.

                                                                                  pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

           

           

             

Natal e Ano Bom com dois frades | João Baptista Herkenhoff
29 de dezembro, 2013

A fim de me preparar para celebrar o Natal e a chegada do Ano Novo, li dois livros: “Fome de Deus” (Frei Betto) e “Francisco de Assis e Francisco de Roma” (Frei Leonardo Boff).

No livro “Fome de Deus” Frei Betto superou, a meu juízo, todos os livros que escreveu anteriormente. É um livro de espiritualidade encarnada, onde oração e ação, eternidade e tempo presente, ciência e fé, corpo e alma caminham lado a lado. Remontando ao primeiro século da era cristã, observa que na Palestina havia miseráveis e famintos, massacrados pelos tributos que o poder romano estatuía e pelos dízimos que as autoridades religiosas exigiam. Jesus assumiu a causa dos pobres. Promoveu um movimento indutor da partilha, especialmente a partilha do pão. Frei Betto demonstra que a Eucaristia não é um rito, desligado da vida mas, ao contrário, é um apelo à Fraternidade e uma exigência de Justiça. Relata com humildade suas próprias dúvidas de Fé, seus tropeços na caminhada rumo a Deus. Refere-se a sete meses de profunda angústia, na obscuridade da noite, um tempo doloroso. A conselho de Frei Henrique Marques da Silva, leu Teresa de Ávila, o que lhe proporcionou o salto de uma religiosidade sociológica para uma fé teologal. Relembrando a parábola do filho pródigo, acentua que é o Pai que vai ao encontro do filho arrependido, disposto à reconciliação. “O próximo não é aquele que encontramos no caminho. O próximo é, em especial, aquele cuja carência – material, psíquica ou espiritual – faz com que modifiquemos o nosso próprio caminho, alteremos a nossa rota, para dar-lhe atenção e dele cuidar. Foi o que fez o samaritano.” (P. 35).

Leonardo Boff solicitou dispensa de ordens. Nos artigos que publica, ele se define apenas como teólogo. Mas eu continuo chamando-o de Frei Leonardo Boff porque para mim ele é um frade, em toda a grandeza e significação do que deve ser um frade no mundo moderno.

No livro “Francisco de Assis e Francisco de Roma”, o autor traça um paralelo entre o santo e o papa. A respeito de São Francisco de Assis não surpreende que conheça o testamento do patrono de sua ordem religiosa. O que há de notável, neste livro que agora aparece, é ter Frei Boff conseguido demonstrar que, na essência da personalidade do homem Bergoglio habita o espírito de São Francisco de Assis. Embora conheça Teologia, o Papa Francisco não se distingue de predecessores pelo saber teológico. O que faz dele um Papa cuja posse foi saudada com entusiasmo por gregos e romanos, católicos e seguidores de outras religiões cristãs, agnósticos e ateus confessos, num coro universal de aprovação, é a sensibilidade que brota espontânea no seu rosto, é o coração, a humildade, a doçura, nisto distinguindo-se como verdadeiro paradigma.

 

João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado (ES) e escritor. Publicou recentemente: Encontro do Direito com a Poesia – Crônicas e escritos leves (GZ Editora, Rio de Janeiro). E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

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Chega de paz | Pedro Israel Novaes de Almeida
24 de dezembro, 2013

 

Confesso que ensaiávamos um artigo pregando muita paz e prosperidade a todos, em 2014.

Não conseguimos. A utilização de um jato da FAB, para a realização de implante de cabelos, mudou-nos a opinião, sedimentada há décadas.

A paz e calmaria social só são úteis a povos civilizados, que contam com instituições sólidas e cidadania plena. Nada edificam, em povos subjugados e pouco ilustrados, como nós.

Fizemos a boa fama de povo ordeiro e pacato, quando sabem as esquinas que somos, em verdade, mansos e maliciosamente resignados. Consta que somos uma democracia, presidencialista, mas vivemos a mais descarada das ditaduras parlamentaristas.

Dizem as sondagens de opinião que somos, a maioria, honestos e trabalhadores. Honestos não elegem desonestos, e trabalhadores não são representados pelos que fizeram da política profissão.

Povos amadurecidos e civilizações respeitadas passaram por profundas crises, guerras e conflitos sociais. Possuem história, e aprenderam pela via nada pacífica dos embates.

Por aqui, toda crise é contornada, todo conflito é desprezado, e toda solução duradoura é postergada. Nosso poço não tem fundo.

Estando ou não no poder, quem manda, de fato, no Brasil, são os corruptos, os que iludem, os que malversam, os que empregam apaniguados e aparelham o Estado. Foi assim ao longo de grande parte de nossos cinco séculos.

Se o regime é fechado, os corruptos auxiliam o combate aos revoltosos. Se é, bem ou mal, aberto, os corruptos auxiliam a viabilização dos sonhos de poder.

A paz, em nosso meio, é maléfica. Se um jato da FAB pode ser utilizado para uma viagem destinada a um mero implante de cabelo, em nada assemelhado ao trato de assunto de relevância pública, a paz realmente não tem gerado soluções duradouras.

A cantilena, já a entoamos, de que a urnas fatalmente levarão ao respeito à cidadania, parecem, agora, fundo musical de conto de fadas. O resultado das urnas são reflexos de favores oficiais, ofertados com nome e sobrenome, produto de mágicas e peripécias marqueteiras e absoluta falta de educação de grande número de votantes.

A corrupção e os desmandos vicejam em ambientes pacíficos, e, quanto mais manso o povo, mais cruéis os mandatários. O ressarcimento, aos cofres públicos, do montante gasto na já famosa viagem do implante, não perdoa o malfeito, nem desestimula a repetição do inusitado.

Hospitais congestionados, segurança pouca, educação sofrível, proliferação irresponsável de gastos inúteis e cinismo à larga, merecem mais que atitudes pacatas e mansas. É chegada a hora das instituições da sociedade civil saírem de suas cavernas e acenarem para o fim da paz que escraviza e deprime.

Convém bater panelas e sair às ruas, paralisando o país enquanto a situação de descalabro e desonestidade perdurar. Estar parado é melhor que caminhar para o pior.

                                                                                    pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.       

Espírito de Natal | João Baptista Herkenhoff
24 de dezembro, 2013

 

Gosto de reuniões de família no Dia de Natal. Essas reuniões, a meu ver, guardam plena sintonia com o espírito natalino. Não é fraterno que se reúnam, em torno de uma mesa, aqueles que se amam?

Mas penso nos milhões de irmãos que não podem desfrutar desse encontro. Penso nos que estão presos, nos que padecem em hospitais, nos que não têm nem teto, nem terra, nem pão, nem abrigo. Penso nos que estão excluídos do modelo social e econômico vigente, tão distante da proposta evangélica.

O Natal de minha infância tinha Missa do Galo à meia noite. Tinha presépio que os irmãos – todos juntos – montávamos, colhendo pedrinhas e arbustos nas margens férteis do Rio Itapemirim.

Nos dias que precediam o Natal vivíamos um clima de espera naquela casa acolhedora da Rua Vinte e Cinco de Março, em Cachoeiro. Espera do presente de Natal, dos abraços, dos Avós que vinham comemorar conosco a grande data.

Sempre visitávamos os presos no Dia de Natal. Aquele, cujo nascimento celebrávamos, mandou que amássemos os excluídos.

O presépio só era desarmado no Dia de Reis.

Eu sentia uma imensa tristeza quando ajudava a desfazer o presépio de Jesus. Aquele ato, que todo ano se repetia, marcava o término do Tempo de Natal.

Não vejo hoje o Cristo como o centro do Natal. Foi substituído pelo consumo, que é o novo deus.

Quero comungar este Natal com todos os oprimidos do mundo, nas suas lutas de dor, de sangue e de vida e com todos os que me revelaram a face de Jesus, no decurso desta vida que já se aproxima da oitava hora.

Jesus Cristo foi um radical, um sublime radical. Para atender seu chamado temos de ser como São Francisco de Assis. Se nos falta coragem para tanto, compreendamos, pelo menos, que o rumo é esse, e recusemos as mistificações.

Eu comungo este Natal com os que, junto comigo, batalharam pela dignidade humana, proclamando o nome de Deus, e os que batalharam por essa mesma dignidade humana, recusando nos lábios o nome de Deus.

Quero celebrar o nascimento de Cristo com companheiros dos mais diversos grupos e organizações que se esforçam para transformar radicalmente este país: centros de direitos humanos, comissões de “Justiça e Paz”, grupos de defesa de minorias e segmentos sociais marginalizados, grupos comprometidos com propostas de transformação social, comunidades eclesiais de base, grupos cristãos não católicos.

Espero ter vida para comungar muitos Natais com os que sofrem e com os que se solidarizam com os sofredores e injustiçados. Quero comungar com todos estes não apenas o Dia de Natal, mas o cotidiano da existência, lutas e esperanças, projetos de sociedade, utopias. Sonhar o sonho impossível que a crença pode tornar sonho real.

 

João Baptista Herkenhoff é Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, Juiz de Direito aposentado e escritor.

E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520

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O mistério de Noel | Pedro Israel Novaes de Almeida
20 de dezembro, 2013

 

Os adultos são complicados.

Ensinam que existe um idoso gordo, que veste vermelho e usa gorro de ponta branca, chamado Noel. É um grande empresário, dono de gigantesca fábrica de brinquedos, que distribui seus produtos de graça, por todo o mundo.

Não usa naves nem possui passaporte, mas um trenó puxado por renas, sempre e jocosamente referidas, nos trópicos, como “veadinhos de Noel”.  Percorre todo o planeta em uma única noite, deixando presentes onde houver uma criança que tenha sido obediente durante o ano.

Não paga pedágios, mesmo quando transita pelo estado de São Paulo, e tampouco é submetido aos rigores alfandegários. Invade espaços aéreos extremamente vigiados e restritos, sem ser detectado por radares ou ser perseguido por aviões de combate.

Noel pouco fala, e o único som que emite são risos sonoros de uma nota só. Consta que é solteirão, pelo fato de andar sempre solitário e alegre.

Jamais toca qualquer campainha ou bate palmas, preferindo entrar nas residências sem ser notado, pela estreita via das chaminés. Cientistas de todo o mundo estudam a maneira como entra em apartamentos e casas sem lareiras.

Respeita a condição social e financeira das crianças, evitando dar presentes sofisticados a pobres e brinquedos do 1,99 aos ricos. É o único cidadão, em todo o mundo, que fabrica bolas de futebol sem o aval e exigências da FIFA.

Deposita os produtos aos pés das árvores de natal. Vez ou outra, quando encontra meias inodoras, faz delas depósitos de presentes.

Anda de maneira furtiva, e sequer notívagos e boêmios o percebem. Um menor, residente na praça da Sé, acabou internado compulsóriamente, por jurar um avistamento, no telhado da catedral.

Não entrega presentes e brindes em palácios de governos e escritórios parlamentares, nem submete-se a indicações de renas para seu plantel. Jamais permitiu adesivos nos trenós, e fica furioso quando algum eleitor pela carona.

Enfrentou com naturalidade as reações de estranhos grupamentos humanos, que ficaram indignados pelo fato de ser homem, não amarelo, negro ou índio, e jamais ter mostrado qualquer diploma ou especialização. Recebeu insinuações maldosas quanto ao fato de ser solteiro, chegando a ser referido como politicamente alienado e omisso. Alguns comentam, maldosamente, que está a serviço de interesses poderosos, pois permite que sua imagem seja utilizada como chamarisco comercial.

Os adultos propagam e cultivam a imagem de Noel, e fazem cara de paisagem quando as crianças, uma a uma, percebem que foram iludidas. Cientistas humanos concluiram que, ao invés de uma história tão estranha, seria mais útil lembrar que o natal é o registro e comemoração de um aniversário.

Os presentes e ceias seriam esforços humanos, tão diferentes quanto nossas injustiças, lembretes dos ensinamentos daquele que nasceu em humilde manjedoura, dando exemplos que resistem a séculos e animam a fraternidade. Os adultos preferiram a ilusão do velhinho que pouco fala à realidade daquele que tanto disse e fez.

                                                                                     pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

                        

Unanimidade e Discordância | João Baptista Herkenhoff
18 de dezembro, 2013

 

Quem escreve em jornal está sujeito a receber palavras de aprovação e de reprovação. Quando o articulista registra seu e-mail nos textos, fica implícito que se dispõe a acolher as mensagens dos leitores. Não fosse essa pré-disposição, omitiria o endereço eletrônico, pois a Redação não exige que o mesmo seja revelado. De minha parte, quando os temas que abordo são polêmicos, pululam opiniões contraditórias. Habitualmente respondo as abordagens com boa vontade e prazer. Por diversas vezes aprimorei escritos a partir de críticas recebidas.

Quando o assunto por sua natureza comporta divergências, as contestações me tranquilizam e me dão a segurança de que estou sendo lido por pessoas que pensam.

O iconoclasta Nelson Rodrigues disse, com acerto, que toda unanimidade é burra. De fato, a unanimidade é sempre preocupante. Mas faço uma ressalva. Há unanimidades que, se conquistadas num clima de liberdade, debate e contestação, representam avanço ético.

A mim o que incomoda é a unanimidade sem aprofundamento, a unanimidade que se contenta com uma análise parcial dos fatos e despreza o desdobramento que os fatos podem ter. O que me repugna é a unanimidade obtida através do silenciamento das consciências e da pretendida cassação da inteligência, é a unanimidade que a voz única, proferida de Norte a Sul, de Leste a Oeste, pode alcançar.

Causa-me mal estar a acusação sem defesa, o monopólio da fala por uma corrente de opinião, o decreto da verdade.

A desconfiança é uma virtude. Quando todos falam exatamente a mesma coisa é prudente desconfiar, ir fundo, descobrir arestas.

É lamentável quando alguns fatos são enclausurados numa manchete, numa frase sonora, numa palavra de ordem unida (virar à direita, virar à esquerda, descansar armas). Perde-se a oportunidade de um avanço na visão crítica do povo.

Que sabedoria a Ciência Jurídica transmitiu à Civilização quando estabeleceu o princípio do contraditório como um dos fundamentos do Direito. Nenhum réu pode ser julgado sem defesa e a defesa deve ser ampla, geral e irrestrita.

O princípio do contraditório não prevalece apenas no processo judicial. Ele deve ser acolhido e praticado no debate politico, religioso, ideológico e das questões sociais.

 Quando todos apontam o dedo de condenação contra alguém que foi escolhido como Inimigo Público Número Um, não nos deixemos enganar pela manobra. Procuremos encontrar, onde for possível, a opinião divergente, o voto favorável ao indigitado Inimigo Público. Ainda que, no final, nos convençamos de que a maioria está certa, nossa adesão à opinião majoritária terá sido fruto do pensamento livre e não da imposição dos que querem fazer de nós cordeiros obedientes.

 

João Baptista Herkenhoff, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, é Juiz de Direito aposentado e escritor.

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Sofrimento e pobreza | Pedro Israel Novaes de Almeida
15 de dezembro, 2013

 

Dizem, pobres e ricos, que dinheiro não traz felicidade.

Ocorre que a felicidade não é uma etapa, com divisórias nítidas. São momentos, que cessam tão logo o objetivo alcançado ou novidade imprevista adentre o rol das rotinas.

O dinheiro traz conforto e independência. Sua valorização reside mais nos sofrimentos que evita que nos benefícios que traz.

A sociedade reverencia a posse de riquezas. Piadas de ricos são engraçadíssimas, e defeitos cruéis são meras extravagâncias.

O Estado não consegue cumprir o postulado da igualdade de direitos e oportunidades. Para um mesmo crime, as penas são mais pesadas para o menos assistido e pior representado.

O lado pérfido da desigualdade social diz respeito às áreas da segurança, saúde e educação. Pobres vivem em ambientes perigosos, esmolam atendimento nas unidades de saúde e recebem a mais básica educação.

São, contudo, bem humorados. Saculejam, espremidos, por horas e horas, no transporte público, e ainda chegam ao ponto final sorrindo da própria miséria.

Fazem de uma asinha de frango um banquete, e divertem-se jogando malha, truco ou dominó. Banquinhos e degraus parecem poltronas, no boteco mais próximo, grande centro comercial, ao entardecer e fins de semana.

Lê as manchetes dos jornais estampados nas bancas, e fica imaginando o conteúdo integral da notícia. No comércio, paga mais pelo menos.

Pobre que nasce feio morre horrível. Rico consegue consertar defeitos estéticos, engrandecer seios e bundas, e até gargalhar à vontade, com dentes sempre novos.

Até o ingresso no céu parece mais difícil, ao pobre. Horas e horas de gritaria e muita doação são algumas das etapas necessárias.

Pobres sofrem menos quando residem em países com poucos recursos naturais, onde as riquezas são poucas e onde a regra é a penúria. Ali, o ambiente é naturalmente pobre.

O difícil é ser pobre em país rico, onde obras públicas monumentais e faraônicas destoam da paisagem das favelas, com seus emaranhados de fios e nenhum saneamento básico. Difícil é sentir-se roubado a cada dia, por criminosos que sangram os cofres públicos, entoando hinos de preocupação com as mazelas sociais.

Difícil é votar sem esperanças, e descrer das instituições. Difícil é notar que representantes não representam e mandatários pouco executam.

Difícil é chegar ao fim de mais um dia, sofrido, com ânimo para sorrir e desdenhar a própria sorte. Difícil é frequentar discursos e não receber atenções.

Difícil é ouvir, em cada esquina, que dinheiro não traz felicidade. Difícil mesmo é ser brasileiro.

                                                                                       pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.   

            

Livros e pessoas | João Baptista Herkenhoff
11 de dezembro, 2013

 

Livros e pessoas, imortalidade e morte, ideias que se confundem mas que tentaremos separar.

Comecemos pelo registro de um livro que acaba de ser publicado: “Os anos dourados da vida cultural de Vitória – 1946 / 1952”. O autor é o Desembargador aposentado Rômulo Salles de Sá. Ao reconstruir a fundação e o trajeto da Academia Capixaba dos Novos, Rômulo ultrapassou em muito o objetivo proposto. Na verdade ele traçou o panorama de uma época, fez o inventário de um tempo.

Como é importante resgatar a história, reagir contra o imediatismo e o materialismo que dão o traço das sociedades modernas. Com razão o Desembargador Eurípedes Queiroz do Valle via na Academia Capixaba dos Novos a porta de entrada para vôos maiores nas viagens do intelecto.

Para confirmar o acerto do prognóstico de Eurípedes basta relembrar os jovens que integraram o sodalício juvenil. Vieram a ter destacada presença na Literatura, no magistério, nas profissões liberais, na política, na vida pensante do Espírito Santo.

Citemos: Renato José Costa Pacheco, José Carlos Oliveira, Christiano Dias Lopes Filho, Orlando Cariello, Antenor de Carvalho, Setembrino Pelissari, Mário Gurgel, Durval Cardoso, Joaquim Beato, José Luiz Moreira Cacciari, José Carlos da Fonseca, Nélio de Faria Espíndula, José Cupertino Leite de Almeida, José Garajau da Silva, Guilherme José Monteiro de Sá, Renato Bastos Vieira, José Wandervaldo Hora, Hermínio Blackman, Waldir Ribeiro do Val e o próprio Rômulo Salles de Sá.

Vamos agora reverenciar pessoas que seguiram no rumo do Eterno. A proximidade entre a data de duas perdas faz com que este artigo exalte duas mulheres de grande valor.

A primeira que partiu foi a Professora Zoira Viana de Resende, que era casada com o Professor Wilson Lopes de Resende. Wilson foi Diretor do Liceu Muniz Freire durante muitos anos e Zoira sempre esteve do seu lado, de modo que a vida de ambos se confundia sob a luz de um mesmo ideal.

Em Cachoeiro o Liceu e a Escola de minha família eram rivais. Nas pugnas esportivas a competição chegava ao extremo. Só recentemente fumei o cachimbo da paz com Mara Rezende, filha de Wilson. O armistício ocorreu por ocasião de um seminário de Ética, na Faculdade de Direito de Cachoeiro, quando Mara me convidou para fazer uma palestra.

A segunda homenagem desta página é dirigida a Maria Antonieta Queiroz Lindenberg, presidente da Reda Gazeta. Maria Antonieta foi uma das fundadoras do núcleo capixaba da Legião Brasileira de Assistência (LBA), instituição que tantos serviços prestou ao povo, principalmente às pessoas mais humildes. Maria Antonieta foi casada com o ex-Governador e Senador Carlos Lindenberg.

 

João Baptista Herkenhoff, Juiz de Direito aposentado, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor.

E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br

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